Treinamento do Ator- Jacque Lecoq e Meyerhold

 

Treinamento do Ator- Jacque Lecoq e Meyerhold

Teatro Físico

Síntese

 

Ao longo da história do Teatro deparamo-nos com uma constante, que é comum em qualquer vanguarda ou aparecimento de uma técnica nova, a necessidade de evolução e a reflexão diária desta arte perante a sociedade e o trabalho de ator.

O Teatro Físico não é exceção e o seu aparecimento nas últimas três décadas do século XX surge como abertura de novos caminhos sobre o olhar do trabalho de ator e a relação com o corpo na criação de um projeto, assim como a materialidade da cena e a sua expressividade.

 A sua construção nasce a partir do cruzamento de várias áreas como a Dança, a Mímica, o Teatro e o Circo trazendo para o trabalho de ator um foco especial e central para a corporalidade cénica, a sua consciência e a sua relação com o espaço.

 

“A produção eclética reunida pelo conceito Teatro Físico é identificada com a tensão que se apresenta no duplo legado do nome que a caracteriza: uma ação sobre a fisicalidade, gerando uma certa disposição do corpo, em função de uma teatralidade especifica “(Definição do Termo – Teatralidade e Corporalidade, pag16)

 

Se nos questionarmos se é possível a existência do Teatro sem a utilização do corpo do ator como elemento de construção cénica esta reflexão vai-nos levar por vários caminhos e por diversos nomes que defendem teorias dispares, contudo, queria só focar nalguns nomes que contribuíram para o alargamento do estudo do trabalho corporal do ator.  



  •            Vsévolod Meyerhold


    Vsévolod Meyerhold nasceu na Rússia, a 10 de fevereiro de 1874, e desde muito cedo teve contacto com a arte por intermédio da sua mãe, que lhe transmitiu o gosto pela música e pela arte do espetáculo.


    

Meyerhold 8https://www.google.com/search?q=meyerhold+teatro+fisico&sxsrf=ALeKk03ic7Fcc-B-Hwe6flmrlf-nDcQYNw:1612895920852&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwiB7a_Dud3uAhWJQUEAHftiBqwQ_AUoAXoECAMQAw&biw=1093&bih=526#imgrc=LeaWv1HhbdCGaM


             Meyerhold começou a estudar direito na Universidade de Moscovo, contudo, o seu interesse pelas artes falou mais alto levando a abandonar o curso de direito concentrado assim o seu tempo ao estudo das artes.

                    Em 1896 entra na Escola da Sociedade Filarmónica de Música e de Drama em Moscovo e pouco tempo depois, em 1898, entrou no Teatro de Arte de Moscovo [T.A.M] dirigido por Stanislavski, uma das referências de Meyerhold até então.

            Stanislavski tinha como objetivos principais ao construir o Teatro de Arte de Moscovo a renovação do que era a prática teatral russa procurando uma valorização e uma busca pela verdade cénica e a identificação do ator com a personagem.

            Para Meyerhold a passagem pelo Teatro de Arte de Moscovo e a partilha de conhecimento com o seu mentor Stanislavski foi um importante passo para a sua formação e crescimento na área do teatro, que permitiu uma primeira abordagem pelo o teatro naturalista e pela busca da verdade em cena a partir do trabalho de ator através das emoções e a ligação com o corpo perante as circunstâncias apresentadas.

Todavia, Meyerhold começou a discordar do conceito Stanislavskiano e em 1902 colaborou com Kocherov na construção de um grupo chamado “Sociedade do Drama Novo”, como tentativa de contestar a estética naturalista e principalmente o método psicológico da personagem e a destruição da quarta parede.

Meyerhold iniciou-se como encenador em 1902 e inicialmente as suas apresentações foram encenadas aliadas à estética utilizada pela T.A.M (realismo e naturalismo), contudo, Meyerhold foi refutando o naturalismo e apoiando-se no repertório simbolista e numa reflexão sobre o espaço e técnicas de interpretação, compondo a sua própria linguagem teatral.

Em busca de um novo teatro e rejeitando o ideal daquela que tinha sido a sua escola, Meyerhold vai inspirar-se no impressionismo, no cubismo e finalmente no expressionismo alemão para desenvolver uma pesquisa de trabalho muito particular.

Propôs uma nova abordagem a partir de pesquisas como a commedia dell’arte, as improvisações, a pantomima, o grotesco e o simbolismo cênico.

Meyerhold procurou criar um teatro, em que o ator, o diretor e o público fossem em consonância os criadores do fenômeno teatral. Aproximou-se do construtivismo que buscava no campo das artes plásticas e da arquitetura uma arte baseada no materialismo, desvinculada de toda a herança cultural idealista do passado elaborando a teoria da biomecânica.

Assim, a cópia do real deixaria de sustentar a criação artística, para em vês disso se tornar uma reflexão da realidade que colocava em primeiro plano a relação entre o ator e o público através de jogos que pudessem revelar e intensificar os traços psicológicos de ambos.

 

“Nessa forma de teatro o ator não oferece a ilusão de que os acontecimentos apresentados ao público não foram estudados e previamente ensaiados e, ao mesmo, tempo o público sente a vida que emana do palco, ou seja, da obra de arte” ( Borie, M., Rougemont, M. d., Scherer, J., & Barbas, H. (1982). ESTÉTICA TEATRAL: textos de Platão a Brecht. Paris.)




Teatro Meyerhold ( https://www.google.com/url?sa=i&url=http%3A%2F%2Fcoursefield.blogspot.com%2F2014%2F12%2Fteatro-fisico-meyerhold-y-biomecanica.html&psig=AOvVaw3t204qNPglkbYlvDJ5PwY2&ust=1610318269603000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCODDqZj1j-4CFQAAAAAdAAAAABAD)

 Teatro de Meyerhold 7https://www.google.com/search?q=meyerhold+teatro+fisico&sxsrf=ALeKk03ic7Fcc-B-Hwe6flmrlf-nDcQYNw:1612895920852&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwiB7a_Dud3uAhWJQUEAHftiBqwQ_AUoAXoECAMQAw&biw=1093&bih=526#imgrc=WlcCZo4OqZ5-oM


Na sua procura de um teatro novo depois de um longo tempo Meyerhold compreende que naquele momento o que dificultava o “processo de inovação” eram os elementos inconciliáveis que utilizava: dramaturgia simbolista, pintores estetizantes e jovens atores formados pelo realismo psicológico do teatro de arte e, então entende que era necessário formar um novo tipo de ator e só então impor-lhe as novas tarefas.

Meyerhold cria então o seu Estúdio onde desenvolve matérias como a dança, a música, o atletismo, o ténis e o lançamento do disco. Desenvolve também alguns princípios fundamentais da técnica da comédia italiana improvisada e estudos sobre os materiais do espetáculo como o cenário, a iluminação dos palcos, os figurinos e os objetos de cena.



Exercícios Meyerhold 1https://www.google.com/search?q=meyerhold+teatro+fisico+biomecanica&sxsrf=ALeKk01uOQogTwAGZYNloo2DGQ9dbzl_Aw:1612896511085&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwiqv-jcu93uAhVxQRUIHZhKC9AQ_AUoAXoECAMQAw&biw=1093&bih=526#imgrc=VSVAwy2e8CHJWM



Técnicas de Meyerhold 9https://www.google.com/search?q=meyerhold+teatro+fisico&sxsrf=ALeKk03ic7Fcc-B-Hwe6flmrlf-nDcQYNw:1612895920852&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwiB7a_Dud3uAhWJQUEAHftiBqwQ_AUoAXoECAMQAw&biw=1093&bih=526#imgrc=7xwZRd-FkAW42M


Em 1922 Meyerhold encontrou então o seu teatro, concluindo que a utilização da cortina era inútil pelo que a maior parte dos espectadores não se importavam de ver o cenário a ser montado mesmo antes do espetáculo iniciar, nem via a necessidade de escurecer o palco quando o espetáculo interrompia ou mudava de cena. Desta forma, estabeleceu uma relação mais próxima entre atores e espectadores.

Para Meyerhold o ator deveria ser capaz de interpretar a psicologia e a fisiologia. Nos seus ensaios implementou o estudo da biomecânica – ação das energias interiores e exteriores do corpo ‘vivo’.

Para o trabalho de movimento corporal ser preciso, a biomecânica assenta em algumas linhas que permitem um maior aproveitamento de todo o corpo. Desde já a necessidade de saber organizar e encontrar o corpo no espaço, bem como ter consciência do mesmo calculando cada movimento com clareza e justificação.

O teórico russo através da observação e trabalho científico do corpo humano e o mundo físico ao seu redor, deixa-se influenciar fortemente pelo estudo do industrialista americano Frederick Taylor sobre a “economia do movimento” numa linha de fábrica de produção.



 2https://www.google.com/search?q=meyerhold+teatro+fisico&sxsrf=ALeKk03ic7Fcc-B-Hwe6flmrlf-nDcQYNw:1612895920852&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwiB7a_Dud3uAhWJQUEAHftiBqwQ_AUoAXoECAMQAw&biw=1093&bih=526#imgrc=N4a96nHGiUtz4M

A calma total e o equilíbrio são fundamentais uma vez que é proibido ter pressa e mesmo mostrar um carácter ou temperamento.

“O ator deve treinar o seu material, quer dizer o seu corpo, de tal maneira que fique apto a realizar as instruções recebidas do exterior (do ator ou do encenador). Na medida em que a interpretação do ator é execução de instruções determinadas, exige-se dele uma economia dos modos de expressão que garante a precisão dos movimentos susceptíveis de executar as instruções nos prazos mais curtos.” BORIE, ROUGEMONT E SCHERER, Estética Teatral, 2004, pág. 405)

 

Meyerhold observou que o ciclo da ação não é estranho à vida, mas é bastante negligenciado no palco. Por não encarar o teatro como cotidiano, mas como teatral, ele concluiu que toda ação teatral deve ser executada no máximo de sua completude.

Através de um cuidadoso estudo da coordenação muscular e do sistema de alavancas inerentes à forma humana, o ator pode executar os movimentos, os gestos e a fala de um modo mais eficiente. Ele pode então escolher como manipular os seus movimentos treinando o corpo para executar o que for solicitado pela sua mente e pelas suas emoções.

Tendo como base a racionalidade, a precisão, a sequência, a produtividade e a funcionalidade social em cada movimento.

 

O objetivo de Meyerhold era “desenvolver um estado de prontidão e a capacidade de reação a fim de diminuir ao máximo o tempo de passagem entre pensamento-movimento, pensamento-palavra e movimento-emoção-palavra” (BONFITTO, 2002, p. 44).”



  Lançamento da Flecha ( https://www.google.com/url?sa=i&url=http%3A%2F%2Fwww.wikidanca.net%2Fwiki%2Findex.php%2FVsevolod_Emilevich_Meyerhold&psig=AOvVaw1LQdJrYHM_oJBrG-cCqkeJ&ust=1610323815768000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCPiZq-qJkO4CFQAAAAAdAAAAABAD )


Deixo aqui alguns links de videio que ajudaram numa maior compreensão do trabalho de Mayerhold :

   (2) El Teatro de Meyerhold y la Biomecánica pt.2 ( Subt.Español) - YouTube

  (2) Meyerhold's Biomechanics - YouTube  

 (2) Estudio de Biomecánica. Genadi Bogdanov - YouTube



 Jacque Lecoq


Jacque Lecoq, nascido em França a 15 de dezembro de 1921, trouxe outro olhar para o trabalho corporal do ator, conhecido pelos seus métodos no ensino do Teatro Físico, movimento e mimica. 

 

Jacque Lecoq (https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fwww.azquotes.com%2Fauthor%2F50033-Jacques_Lecoq&psig=AOvVaw3x1iPY0ZoGCCMDz_TeXYQn&ust=1610317870962000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCMCN09jzj-4CFQAAAAAdAAAAABAD)

    Deixando- se influenciar pela sua paixão desportiva e pelo estudo e ritmo do corpo do atleta cruzando com o estudo do corpo do ator por intermédio Antonin Artaud e Jean-Louis Barrault.

O seu percurso ficou marcado pela passagem por Itália onde morou alguns anos e teve contacto com o trabalho da Commedia dellárte onde lhe foi apresentado a mímica, a máscara e a fisicalidade da performance.

Em 1956 abre uma escola de formação para atores em Paris, que se encontra até hoje em funcionamento, dedicado aos princípios básicos do jogo e da criação dramática assim como a utilização de diversos princípios aplicados as diferentes tradições de jogo dramático: melodrama, commedia dellárte, tragédia e clown.

Sempre com o objetivo da procura da relação entre o ritmo, o espaço e a força no trabalho do corpo do ator através do movimento.


“[…], o peso, a resistência, o desequilíbrio, o foco, o final de um movimento e o início de outro, o encadeamento de um para o outro, garantindo um domínio técnico para trabalhar com qualquer tipo de movimento e repertórios diferentes, configurando uma base sólida de formação para o artista.”  (Sachs, Cláudia, Aspectos da preparação do artista de teatro na metodologia de Jacques Lecoq; Programa de Pós-Graduação em Teatro - UDESC – Doutoranda, Pag3)


A disciplina imposta aos seus alunos era o reflexo de uma estrutura de trabalho de responsabilidade e consciência que Lecoq defendia que seria o trabalho de ator. Este foca-se numa consciência corporal, controle de energia e presença aliados a uma disponibilidade e limpeza de movimento.

Escola I


O conhecimento das leis do movimento, do seu desenho no espaço e a conexão com a arquitetura encerram um importante princípio da escola. Lecoq era um estudioso do movimento, baseando-se nas linhas concretas arquitetónicas que ele desenha no espaço, no sentido de “base arquitetural do movimento”. (Sachs, Cláudia, Aspectos da preparação do artista de teatro na metodologia de Jacques Lecoq; Programa de Pós-Graduação em Teatro - UDESC – Doutoranda, Pag3)



Escola Internacional de Teatro de Jacque Lecoq (https://www.google.com/search?q=jacque+lecoq&tbm=isch&ved=2ahUKEwikwvWkr93uAhVG3hoKHSAjCmcQ2-cCegQIABAA&oq=jacque+lecoq&gs_lcp=CgNpbWcQAzIECCMQJzIECCMQJzIECAAQE1Cy7wFYsu8BYJryAWgAcAB4AIABaYgBaZIBAzAuMZgBAKA


 Escola Internacional de Teatro de Jacque Lecoq (https://www.google.com/search?q=jacque+lecoq&tbm=isch&ved=2ahUKEwikwvWkr93uAhVG3hoKHSAjCmcQ2-cCegQIABAA&oq=jacque+lecoq&gs_lcp=CgNpbWcQAzIECCMQJzIECCMQJzIECAAQE1Cy7wFYsu8BYJryAWgAcAB4AIABaYgBaZIBAzAuMZgBAK)


A improvisação é um dos elementos centrais da escola de Lecoq sendo um fio condutor para o processo de criação e construção da cena e das personagens.

Para Lecoq o trabalho com máscara proporcionava ao ator uma perceção melhor da relação do corpo/ espaço e do seu deslocamento. O uso da máscara neutra possibilita o foco em diversos aspetos evidentes no corpo do ator como: eliminar gestos e ações pessoais que interferem na atuação, uma noção corporal que precede a ação, um sentido de escuta, a abertura e a disposição corporal que resulta num corpo “pronto para o jogo” ou de “presença cênica”. O estado de neutralidade, o neutro como um estado diferente do cotidiano, que marca o momento em que o ator sustenta um outro no seu corpo.

 

“A máscara neutra é um objeto particular, um rosto dito neutro, em equilíbrio [...]. Esse objeto colocado no rosto deve servir para que se sinta o estado de neutralidade que precede a ação.” (LECOQ: 1997, p.69)



            Máscara Neutra (1987) - artista Takashi Kawahara  ( Máscara Neutra - Filipe Crawford)


Mascaras Larvais (https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fwww.telerama.fr%2Fscenes%2Fjacques-lecoq-le-gourou-cache-d-avignon%2C83982.php&psig=AOvVaw3x1iPY0ZoGCCMDz_TeXYQn&ust=1610317870962000&source=images&cd=vfe&ved=0CAIQjRxqFwoTCMCN09jzj-4CFQAAAAAdAAAAABAK

        A partir do momento em que os seus alunos se sentiam confortáveis com as máscaras neutras este passaria a trabalhar com outros tipos de máscaras, como por exemplo, as máscaras larvais, máscaras expressivas, meias máscaras, trabalhando gradualmente para a menor máscara de seu repertório o nariz de palhaço


3https://www.google.com/search?q=jacque+lecoq&tbm=isch&ved=2ahUKEwikwvWkr93uAhVG3hoKHSAjCmcQ2-cCegQIABAA&oq=jacque+lecoq&gs_lcp=CgNpbWcQAzIECCMQJzIECCMQJzIECAAQE1Cy7wFYsu8BYJryAWgAcAB4AIABaYgBaZIBAzAuMZgBAKABAaoBC2d3cy13aXotaW1nwAEB&sclient=img&ei=9MsiYKT


Fazendo uma breve conclusão desta síntese que pretende realçar alguns dos temas que irem abordar no seminário diria que o Teatro Físico traz consigo uma grande carga de técnicas para o trabalho de ator, espelhado nos inúmeros contributos que foi tendo ao longo do tempo, para um trabalho mais rigoroso e consciente do corpo do ator como elemento fundamental de criação.       

 

Deixo aqui alguns links de videio que ajudaram numa maior compreensão do trabalho de Jacques Lecoq:

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sequência de Movimentos 1ª Parte- Jacques Lecoq

Sequência de Movimentos 2ªParte - Jacques Lecoq