LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da UNICAMP
Vídeo - o percurso do Teatro LUME
No contexto de Teatro Físico, o LUME fez as suas pesquisas teatrais, desde a sua fundação até hoje, marcantes e com referências no trabalho do ator com base em ações físicas. Foi fundado em 1985 (até hoje no ativo), por Luis Otávio Burnier, lembrado pela enorme contribuição à arte de ator – com a criação e o desenvolvimento de técnicas de representação. Burnier, nascido em 1956, estudou por conta própria e não só lançou seus espetáculos como ganhou prémios e bolsas de estudo que terão levado avante as técnicas da arte do ator. Iniciou a pesquisa de Mimesis Corpórea, técnica até hoje trabalhada pelo LUME e foi admitido como professor na UNICAMP (Departamento de Artes Cênicas do Intituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas) e a trabalhar paralelamente como diretor de atores e espetáculos. Após conhecer o ator Carlos Simioni os dois trabalharam em treinos desenvolvidos e transmitidos até hoje pelo LUME como a Dança Pessoal e o Treinamentos Energético e Técnico do Ator, tendo assim estreado o seu primeiro espetáculo, com base nesses treinamentos, em 1988 “Kelbilim – o Cão da Divindade”.
Vídeo - Espetáculo Kelbilim - O Cão da Divindade
Terá sido, posteriormente, nos anos seguintes, introduzido a pesquisa da arte do palhaço e o sentido cómico do corpo (primeiro espetáculo em 1992 “Valef Ormos) bem como a dança butô (com a bailarina butô Natsu Nakajima em “Sleep and Reincarnation from Empty Land”).
Imagem - Espetáculo Valef Ormos 1992 - Introdução do Clown e o sentido cómico
Em 1994 é quando o LUME passa a ser reconhecido pela UNICAMP como o Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais e quando Burnier defende a sua tese de doutoramento de “A arte do ator – da técnica à representação”, sintetizando, assim, os 10 anos de pesquisas e estudos do LUME. Após a morte de Burnier, em 1995, os atores do LUME continuam as suas pesquisas e desenvolvendo novas técnicas e espetáculos. Em 1998 lançam as “Paradas de Rua”, indo para as praças e avenidas das cidades onde interagem com a comunidade local. Em 2000 completam 2 anos de pesquisa sobre o universo do corpo em estados de trauma e unindo as pesquisas de Dança Pessoal e Mímeses Corpórea.
Imagens retratando as paradas de rua do Teatro LUME em interação com o público.
Vídeo - “Clipe do espetáculo Você, com Ana Cristina Colla (LUME Teatro - Campinas - SP). Direção: Tadashi Endo. Memória e imaginação se misturam neste espetáculo que inverte o fluxo natural da vida e a recria no tempo poético da cena, a partir da velhice até a infância. Futuro, presente e passado se encontram no palco por meio de técnicas da Dança Pessoal, da Mímesis Corpórea e do Butô, desenvolvidas pela atriz junto do LUME Teatro e do diretor Tadashi Endo. "Você" é um poema corporal que fala de cada um de nós e revela a beleza e a dor existentes em cada fase da vida. Estreou em 2009.”
O LUME realiza pela primeira vez, em 2003, o projeto Cursos de Fevereiro em que os atores do grupo trabalham durante um mês na transmissão das técnicas desenvolvidas pelo LUME.
Em suma, Burnier e seus participantes, buscaram um trabalho de treinamento energético do corpo, de forma a “quebrar” tudo o que é conhecido e viciado no ator não-interpretativo. Este treinamento não tem regras formais ou lineares, ou seja, os movimentos podem e devem ser aleatórios e dinâmicos englobando todo o corpo, sendo a única regra não parar. Importante é, também, nos seus treinamentos, a comunicação corpórea e energética entre os participantes, não só para superar as dificuldades individuais dos movimentos do corpo (ex.: cansaço físico), mas para, também, superar a dificuldades entre participantes, para que consigam toda uma energia dinâmica e de igualdade em grupo. Após o treinamento energético o ator passa para o treinamento técnico, onde, põe então em prática, a sua aprendizagem e canalização para o corpo para que este passe para um corpo cênico, comunicando assim com o público.
Imagem - retratando o treinamento do ator
Hoje o LUME tem 35 anos de existência, continuando no ativo, embora, com os efeitos da pandemia, os seus espetáculos estão mais restritos e até mesmo suspensos.
Sendo que o principal conceito de teatro físico é a fisicidade do ator, então porque é que o Teatro Lume não se define como tal, embora a maioria das suas peças são concentradas na arte corporal? Definindo teatro físico, onde o movimento corporal é o principal elemento, e sendo que o LUME utiliza, como base, as técnicas da arte do ator e até hoje uma grande referência nesse sentido, então seria de esperar que se conceituasse como Teatro Físico. Mas, após entrevistas a alguns atores/colaboradores do LUME, deixaram claro que o termo teatro físico não é algo que os possa definir como único gênero que praticam. Afinal eles praticam a fisicidade e movimento corporal, mas há também outros fatores treinados por eles, como a expressão, a energia do ator, que conceitualmente ampliam a noção de fisicalidade.
Ao longo da história, ressalvando que o termo teatro físico surgiu na década de 70 na Inglaterra, esta nomenclatura tem sido alvo de diversas controvérsias e discórdias por diversos atores/diretores e colaboradores no geral no mundo do teatro e, desta forma, o LUME inclui-se nessa controvérsia pois não é o físico que os define, embora também usem (e é usado no termo teatro físico) o texto falado. Até mesmo, segundo Carlos Simioni, um texto falado onde existe a arte psicologizada, também tem um quê de físico, mas, não é por isso, que tenha de estar definido como físico no verdadeiro sentido da palavra. Então, apesar de para fins de estudo, o teatro do LUME apresentar características do que é considerado teatro físico, o grupo LUME não se identifica com essa nomenclatura. De todo modo, para nós vale a pena conhecer a arte do LUME e seu trabalho de ator.
Aqui um exemplo de uma peça do LUME com a imagem do Palhaço onde é notório a energia transmitida da sua expressividade (comicamente assustados).
"Um espetáculo de quadros em movimento, sem palavras, com música variada e canções acústicas, unindo a elegância e o minimalismo do “Butoh-Ma” do coreógrafo japonês Tadashi Endo..."
"Os sete atores da companhia utilizam seus corpos como recipientes para contar uma versão particular do ciclo da vida. Por vezes dramática, outras vezes poética ou grotesca – do inocente começo até o espasmódico avanço da evolução, e culminando em uma visão apocalíptica, a tensão do espetáculo se desenrola entre o mundo natural e o humano.
A estrutura aberta do espetáculo sugere mais do que mostra, desafiando as narrativas tradicionais e convida cada espectador a ser um participante ativo na criação de sua própria dramaturgia nesta experiência teatral de refinada técnica."
36549 - Milene Pratas
Universidade de Évora
Licenciatura em Teatro
Docente - Renata Meira





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